
Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.
(A Hora da Estrela)
Essa frase pode dizer mais do que realmente parece, pelo menos para mim. Eu sempre acreditei demais nas pessoas, no potencial delas, no potencial do amor, em transformar tudo, em regenerar tudo, em curar realmente o mundo. Acreditava tão firmemente que várias vezes fui chamada de tola, de sonhadora, de idealizadora, de criadora de mundos paralelos e não reais. Mas pra mim, essa era a minha verdade, foi por isso que nem por um segundo eu tinha deixado de amar alguém, ou sonhar com alguém, deixado de querer tá perto, de tá junto. E isso desde que me entendi por gente, sempre precisei apreciar, para gostar mais um pouquinho daquele ser que estava ao meu lado. Lembro hoje, que quando eu tinha 10 anos me apaixonei a primeira vez, e não foi uma paixãozinha daquelas de crianças, longe disso, acreditei durante 5 anos que eu realmente podia algum dia ser feliz com aquele meu amor platônico. Nunca nem havia se quer ficado com ele, quem dirá engatar um namorinho pré-adolescente. Nada disso, mas mesmo assim eram esses sentimentos de gostar, que me faziam ter o carinho e o respeito por aquela pessoa. Lembro que eu fazia cartinhas e vários planos, tinha escolhido até nossas musiquinhas na cabeça, e tudo como seria nosso primeiro beijo. Depois fui percebendo que a vida trata de deixar boas lembranças de cada um, e passaram pessoas muito mais importantes, mais especiais, mais verdadeiras, mais marcantes. Mas cada uma deixou um jeito único no meu olhar.Porém, ultimamente parece que eu tenho me negado a sentir algo assim, que eu tenho proibido dentro de mim algo que poderia ser realmente mágico. Mas não é algo que eu escolha, eu acho que realmente senti várias emoções durante toda minha vida, senti tanto a criação de um grande amor, como a destruição dele. E isso, embora eu não sinta mais nada pelos meus relacionamentos passados, me endureceu um pouco, e pode parecer que as vezes eu seja um tanto quanto indiferente, mas eu não sou. Só não estou mais acostumada a sonhar tanto, a idealizar. Talvez por tudo aquilo que eu já quis demais, eu preservei pra mim um pouco da discrição. Mas sempre fui a menininha que sonhou em casar, ter filhos e tudo que possa realmente significar criar laços, e não considero isso fora de moda ou ultrapassado.Ultrapassado é querer demonstrar aos outros o que não se é, é querer mudar o rosto pra conquistar, pra agradar, é tentar ser ousada quando se é recatada. É tentar ser recatada quando se é ousada. E toda mulher sim, tem um pouco dos dois, tem um pouco dos sonhos que deixou guardado ali na infância. Eu não os deixei somente na infância, deixei guardado no ontem, no ontem mesmo. Nos meus sonhos de quase sempre, e quase sempre eu me iludia. E mais quase sempre ainda eu criava planos mais altos que meus pés. Dizem que os signos de ar, gostam muito de voar, de viajar, de pensar demais, de sentir demais. E eu sou extremamente assim, eu sinto mais do que posso, e crio meus pedacinhos inconcretos de sonhos, de beijos, de abraços, de sorrisos, crio meu arsenal de felicidades. Que esses vou conservando com o tempo e aprendendo que alguns somente devem ser lembrados, mas não desejados novamente. É como uma caixinha de surpresas, daqui a uns anos eu a abrirei, e verei o quão diferente aqueles meus sonhos se transformaram. Mas foram eles os iniciantes para grandes passos da minha história. Não quer dizer que eu não veja com os mesmos olhos, eu ainda sou a mesma Rafa de 9 anos atrás, porém, com algumas feridinhas, e arranhões, e foram eles que se tornaram a Rafa que realmente sou hoje, mais madura. Mas menos madura do que o amanhã. Não somente com lembranças, mas com certezas do que eu quero, do que eu não quero. Do que eu gosto, do que eu aprendi a gostar, e o apreciar ainda é fundamental, e o criar laços, ainda é algo sonhado, por mim e por todos, embora muitos neguem. Porém mais duradores, mais resistentes a ansiedade infantil, mais leais do que o amor exacerbadamente platônico. Mais sinceros do que a não correspondência de uma criança de 10 anos. Mais puros, na pureza da certeza de quase tudo já foi vivido, mas o amor e os planos podem ser reinventados a cada dia.
E como já dizia Lya Luft: "A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura."
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